CONSELHOS DE AMIGO DA ONDA E DA ONÇA

AMIGOS DA ONDA QUE SE VÃO COMO ONÇAS

Há amigos do peito que se tornam da onda, e vão-se num adeus ausente que faz deles amigos da onça. Onças de veludos e turcos, dos que prendem turbantes em cabeças ocas ou complexamente vazias, que violam mulheres sós e abandonadas, porque já haviam sido desonradas antes, ou que lhes colocam e às filhas coletes de explosivos prestes a rebentar na cara de quem odeiam. Destes amigos e inimigos é feito o meu mundo onde também cabem os maluquinhos que apontam a matar e filmam em direto mortes de ex-colegas de trabalho, ou os adolescentes que procuram realizar os jogos de vídeo com Kalashnikov’s compradas nas feiras da Vandoma dos quintais dos iluminados do capitalismo, saindo a matar em infantários repletos de bem-estar e educar pago a peso de petróleo ou ouro. Depois há as histórias macabras de assassinatos e crimes hediondos que se editam para fazer render peixes que cheiram pior que sardinhas em lata fora de prazo, e servem a leitura dos trabalhadores no metro atulhado de abelhudos a espreitar o jornal por cima dos nossos ombros. Também as há macabras fabricadas com personagens de brincar, como artistas que criam os cenários de crimes com barbies e ken’s das vidas de quaisquer crianças felizes. Enfim um mundo do piorio que nenhum Deus se vanglorie de a ele estar atento, porque ou é cego ou não tem arte, ou não ocorreriam os atentados que ocorrem diariamente por ele fora. Assim que me entristece profundamente e deprimo com o que a humanidade tem estado a fazer do mundo e não vejo luz ao fundo do túnel apenas um agravar e adensar de maus sentimentos e más atitudes que me faz desacreditar que algum dia possamos cair no buraco do pais das maravilhas, que possa tornar coelhos em mágicos bons que multiplicam a riqueza e bem-estar dos pobres e dos desprotegidos da sorte ou da herança indevida. Madalena Vilela

 

NÃO ME IMPONHAM PAPÉIS …

Não me imponham papeis que não me cabem Podes imaginar-me nua em tacões sob o crepitar da lareira Pele alva, que sardenta reflete pirilampos luminosos Mas não me imagines de avental como ao Mundo vim Ou de quatro colocando-te os chinelos nos delicados pés Podes pensar-me enorme sorriso ao teu amor submisso Nunca lagrimas de preta acatando ideais alheios Podes ver-me em ações socialmente responsáveis Nunca em quermesses que promovam egos insuportáveis Podes enciumar-te da atenção que acompanhou a moeda entregue ao pedinte Nunca pelo tempo que dedico a arrogantes ou pedantes Podes sonhar-me de mão dada com a lua Ou acarinhando o sol que nunca a acompanha Mas pela tua saúde não me penses amante na noite E perfeita estranha de dia Ilia Mar

 

NÃO ME COLOQUES CINTO DE CASTIDADE QUE EU SOU ATEIA

Te quis, te desejei, me desesperei, e entretanto os ponteiros não pararam e o meu tempo urgiu em urgências quentes e lânguidas. Para ti um esperar para honrar para mim um compasso de desespero. Não se pode pedir a uma mulher que aguarde a quarentena da nossa inquietação. Inquietude que docemente mantiveste acesa e me conduziu a procurar noutros o que é teu por direito desde a pré primária, altura em que candidamente uníamos mãos entrelaçando os dedos pequeninos como se nos pudéssemos desintegrar pelas pontas, para integrarmos um só corpo, uma só alma. Assim, o teu despertar em mim, me deixa, com vontade da união de outros tempos, os tempos da descoberta. Recordo um olhar claro como um rio calmo e transparente por onde cardumes de pequenos peixinhos fluorescentes se movimentavam, agitando as águas do meu coração ansioso. Anseio então alcançar esse sonho de antes, esse integrar-te em mim, desintegrando-nos pelas pontas, unindo almas e corpos num só, e contigo ou sentigo permanecer tua. Por isso meu amor, meu amigo, meu querido, não me abandones à má fé alheia ou me retires a fé na chegada do dito momento ansiado. Também não coloques cinto de castidade na espera que não nasci para ser freira, e simplesmente sou ateia.

Madalena Vilela