Escrever sentimentos com odores menos bons

Escrever sentimentos…

photo-1448932252197-d19750584e56Alguns escrevem umas merdas… outros só escrevem merda… outros não atingem merda nenhuma com a sua escrita…e há ainda os que só fazem merda com o que escrevem. Eu prefiro situar-me nos que se deixam de merdas e escrevem sentimentos. Na interpretação de muitos podem ser sublimes, na leitura de outros quantos, podem ser nobres ou ignóbeis as emoções. Mas quem escreve o que lhe vai na alma, apesar de se expor a criticas, chega ao coração dos que lêem, ainda que tenham um coração de porcaria, para não me repetir.... E mesmo na merda, piar* impõe-se...

Maria João Leal, 27 mar 2009, 00:35:10

 

 

Apresente-nos o seu desafio.

* Campo obrigatório





MESMO NA MERDA NÃO TE EXCLUAS

photo-1453974336165-b5c58464f1ed* Num nascer de dia de primavera esplendoroso, uma criaturinha curiosa corta cordão umbilical e eclode abandonando o seu limitado espaço rumo a… conhecimento, que a palavra liberdade nesta fase ainda é difícil de pronunciar e entender. Nos primeiros dias de vida, olhava tudo o que o rodeava e a cada dia aprendia novas sensações: a primeira o sabor delicioso daquelas coisas compridinhas que a mamã lhe colocava carinhosamente no bico, e de barriguinha cheia, as brincadeiras e cantorias que passava horas a partilhar com os manos, depois as noites quentinhas, em que debaixo da asa da progenitora junto ao seu coração, se sentia amado… Mas, com o passar das horas e alguns poucos dias, o pardalito percebeu que possuía uma mente inquieta, já que a curiosidade, que matou o gato, o fazia viver imaginárias aventuras para lá da borda do refúgio da família, acima da qual a cada dia a sua cabecita pequena avistava um pouco mais de horizonte.

Um dia, uma família de patos passa mesmo por baixo do ninho, rumo a casa, seguindo a mãe. O pardalito deu uns bons dias! entusiasmado em língua de ave, e logo uma parceira, que já vinha a caminhar aos soluços - ora rápida ora lenta ora parada- porque as coisas que lhe atravessavam a vista e a alma a afastavam constantemente da rota, e porque a sua mente era gémea da do pardalito, responde entusiasmada, com a ingenuidade de criança e sem hesitações:

- Olá! Estás aí? Voa até aqui, podemos correr e perseguir borboletas juntos!...

O pardalito, que ansiava desafios em constância, levantou a cabecinha, avaliou a distância, e decidido, fez como vira a mamã fazer já algumas vezes, deu lanço e impulsionou o frágil corpo borda fora em direção à sua recente amiga…

Bateu, bateu, bateu, as suas pequenas asas com a genica que o desafio da aventura lhe motivava, mas uma rabanada de vento arrastou de repente o seu delicado corpo aos trambolhões para longe, fracassando o voo e aterrando em parte incerta, desconhecida e afastada dos seus.

Sentiu pela primeira vez a sensação de desconforto, frio e medo, mas, mesmo assim, com a pouca energia que o fracasso lhe deixou, caminhou decidido em direcção a mais saber sobre o lugar onde aterrou, e em busca de abrigo, que a noite já se fazia adivinhar.

Encontrou um pequeno monte de uma coisa que desconhecia mas que emanava calor, apesar do odor, e subiu-a para descobrir mais. Como era quentinho, e aquele cheiro o fez lembrar do sovaco da mamã, aconchegou-se e em pouco tempo voou para a terra dos sonhos, esperançado no amanhã...

O dia amanheceu solarengo e quente, e o pardalito, que acordou de repente a achar-se em casa com a mamã e os manos, entristeceu ao perceber que estava enganado, mas depois de sorver um pouco do aroma da natureza verde e brilhante que o rodeava, e como se sentia confortável e quente, foi acometido por mais uma dose de alegria e esperança e decidiu cantar!

- Piu!....Piu!.....Piu!....PIU!....PIU!.PIU!PIU!...

De repente, um gato que por ali passava, dos tais cuja curiosidade matava, mas também alimentava, descobriu o pardalito e zás abriu a boca e comeu-o!….

Morais da Estória:

- Quando tiveres amor e conforto em casa não respondas a desafios para aventuras arriscadas fora dela,

- Quando te lançares rumo ao desconhecido, certifica-te de que sabes mesmo voar,

- Quando estiveres na merda, não pies!!!...

 

Ilia Mar

 

A CASA DE MIMI

montanhasChamava-se Mimi mas não vestia de Organdi… fazia-se menos leve a sua vestimenta. Arrastava-se com uma casa que lhe havia sido colocada às costas, à nascença, quando a determinaram caracol-lento.

E, a cada percurso de vida, combatia com resiliência o esforço da subida, a dificuldade da descida, o peso que a derreava ao subir, o embaraço com que descia aos trambolhões. Feita montanha russa que nunca viveu Invernos abaixo de zero e sempre foi ruiva, acolhia como irremediável a sua condição de vida.
Questionava-se várias vezes sobre a sua falta de sorte; pois, se via tantas criaturas que não tinham maior QI, mas cujos destinos eram sobejamente mais leves e descomprometidos, e as suas vidas se faziam de lares mais bem-parecidos, imóveis e solidamente inertes. Mas que fazer? Aquela casa que lhe desagradava de dia, aconchegava-a à noite quando se sentia mais frágil, “carregá-la todo o dia só poderia ser o justo preço pelo conforto da noite...” - concluía.
Não deixava, no entanto, de desejar ser como a borboleta que, após abandonar o ninho que lhe apoia o desenvolvimento e nascimento, não mais arrasta consigo o peso da habitação, e voa livre pelos céus sem se preocupar com o ramo onde pousará ao escurecer, para adormecer serena, porque encontrará seguramente algum.
Depois inocente e honestamente alegrava-se à passagem do Sr. Porco-Espinho, pensando que antes penar com o seu humilde lar do que ter que fazer amor com o que lhe impuseram nas costas que protege, mas também dói.
E lá ia ultrapassando os altos e baixos da floresta como podia e ia aprendendo a melhor fazer, cada dia.
Mimi conseguia, com a sua força e capacidade de aprendizagem e retenção, aumentar progressivamente a velocidade de locomoção. Mas nunca se sentia, no entanto, plenamente satisfeita com os resultados, buscando sempre novas formas de dar as voltas às curvas, ou impulsionar subidas e suster velocidades nas descidas.
Mas foi na subida que ele a apanhou. Igualmente caracol a quem a vida impusera lentidão que não lhe cabia, movia-se de motivações maiores. E essas unidas às de Mimi resultaram: 10 horas de contacto inesquecível e 16 dias de ansiedade, depois, em 150 sementes de amor de cada um, irrompendo a terra fértil.
Esse estado de felicidade em que ambos se quedaram após nascimentos fizeram-nos perspectivar novas opções de vida e habitação, equacionando a hipótese de como casal apostarem em redução de esforço, abdicando de uma das casas. Assim ficou decidido que o caracol que apanhou Mimi na subida, ficaria com o encargo de carregar a casa onde lateralmente acolheria carinhosamente Mimi à noite, e esta dispensaria a sua casa e caminharia com mais velocidade podendo puxar o seu parceiro nas subidas e suster-lhe a queda menos complicadamente nas descidas.
Pareceu-lhes boa ideia, e assim concretizaram-na animados. Mimi despediu-se com pesar do lar que a acompanhou uma vida, e passou a vestir organdi, que lhe caía muito melhor e condizia com o seu espírito naturalmente maternal, depois de aprender a cuidar dos seus 150 rebentos e ter adoptado para cuidar como seus, os 150 do parceiro, a quem não cabia lentidão, e que na sua eficiência, igualmente arranjava tempo para educar os seus e os de Mimi.
Os dias foram passando calmos e sem percalços maiores que subidas e descidas em que tinham que controlar-se velocidades, mas, de resto, nada de novo.
De 3 em 3 meses, Mimi e o seu fiel companheiro que não era de todo lento, faziam amor com o coração na boca, e ofegavam em apneia 600 minutos de encanto, como fazem todos os caracóis-lentos que se prezem para, 384 horas depois, ocuparem novamente os dias de sorrisos, brincadeiras e gargalhadas felizes.
Um dia, sem que nada o fizesse prever, o céu escureceu assustadoramente e rebentou em fúria de ventos e águas em anarquia completa, que arrastaram Mimi, o caracol que não era lento, e os filhotes das últimas sementes fecundadas, morro abaixo, às cambalhotas.
O caracol a quem a lentidão não assistia, avistou em velocidade a hipótese de salvação num cipreste um pouco mais abaixo na queda, e contorceu-se com a força que detinha instruindo os filhos para que fizessem o mesmo. Assim, as suas casas seguraram-nos nos ramos retorcidos do cipreste evitando queda maior. Aos olhos do seu amado caracol não vagaroso, Mimi escorregou lânguida, sem casa que a segurasse, e espatifou-se no chão molhado.
Morais da Estória:
- Mesmo que te pareça que a presença do parceiro te traga segurança eterna e constante na vida não te fies a abandonar a tua casa, um dia podes precisar dela.
- Não penses que partilhar a vida, a noite, os fluidos, e o cuidado aos filhos de alguém o levará a dar a vida ou a casa por ti.
- Acredita que o que te foi imposto em vida à nascença tem uma razão maior para lá estar, mais tarde ou mais cedo acabas por descobrir por quê e para quê.
- Por muito que te pesem, nunca abandones as tuas heranças genéticas, um dia ser-te-ão úteis.
- Vestir Organdi, quando a nossa natureza é feita de razões maiores, nunca dá bom resultado.

Sandra Correia

A METAMORFOSE

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Quando nasceu Hylätty sua irmã Edullinen já lia, escrevia textos e recebia prémios ocupando todo o espaço de orgulho nos corações dos seus papás apaixonados. Como Hylätty sempre foi uma lagarta com bom intimo, nunca se preocupou sequer com isso, orgulhando-se igualmente com os sucessos da irmã que também era lagarta boa.

E assim foram crescendo unidas e partilhando o alimento da folha que as viu nascer. Quando esta perdeu toda a vida ambas tiveram que se fazer a ela, descendo pelo caule cautelosas, mas seguras, até tombar sobre nova folha mais abaixo. Que novamente partilharam entre ambas, até não restar mais alternativa senão descer ainda mais baixo. Quando se encontravam num patamar de três níveis acima da terra fria, Edullinen inicia um processo de construção de casulo sob si mesma que sua irmã de principio não percebeu, e tentou evitar pensando que fosse algo errado. Como Edullinen já havia aprendido sobre o assunto na escola explicou com paciência a Hylätty que se tratava de um processo de evolução e transformação necessário nas suas vidas e que mais tarde se encontrariam novamente, mais velhas mas também mais bonitas e glamorosas.

Hylätty prosseguiu assim sua vida de lagarta com bom intimo sem a presença sabedora de sua irmã Edullinen, o que a fazia sentir-se desmotivada e confusa de quando em vez, mas mantinha sempre a força, segura pela vontade do reencontro que a irmã lhe prometera, o que impulsionava seu corpo a procurar o alimento quando este escasseava no pouso em que estava.

Assim depois de descer os ultimos três patamares da planta em que deixou sua irmã encasulada , prosseguiu caminho pela terra fria até encontrar nova planta cuja primeira folha estava inalcançável sem apoio. Olhou ao redor e viu uma massa consistente mas leve e com altura suficiente para a auxiliar na subida, de modo que não hesitou empurrá-la para junto do caule que pretendia subir, e trepou cautelosa mas segura como aprendera com Edullinen, sua irmã querida.

Depois de algum tempo a alimentar-se dessa folha percebeu que novo alimento se situava acima e não abaixo... Mas entretanto inicia inesperadamente o seu processo de formação da crisálida, não havendo tempo para procurar nova folha, acaba por conclui-lo ali mesmo no esqueleto da folha que a assistiu na metamorfose, mas não segurou o seu peso quando o casulo foi concluído, fazendo-o tombar sobre a massa densa mas leve que se situava abaixo, onde acabou por permanecer até eclodir borboleta.

Num dia solarengo de primavera Hylätty espreguiçou-se para ajudar o casulo a abrir-se com a ansiedade de perceber o quão bonita e glamorosa estaria. Abriu completamente suas asas e voou contente e feliz sentindo-se linda e liberta.

Juntando-se a paná-paná da sua espécie acaba por perceber que afinal não era tão bela e glamorosa como as outras, pois suas asas apesar de terem os desenhos mais bem definidos apresentavam-se preenchidas a tons de cinzento enquanto as outras apresentavam amarelos vivos que raiavam no ar quando em conjunto.

Assim pousou triste num ramo de uma árvore olhando vazio sobre a paisagem e imaginando sua irmã ali para ajudá-la a lidar com esta deceção. Foi então que ouviu um zzz, olhou para o lado e encontrou um ninho cheio de um liquido amarelo que lhe pareceu luminoso. De repente teve uma ideia! Encostou as suas asas ao liquido que trespasssava as paredes daquela espécie de casa, esperando que estas saissem pintadas e iluminadas pelos tons de amarelo, fazendo-a glamorosa como as outras.

Em vez disso para afastá-las teve um enorme sofrimento e depois disso jamais foi capaz de voar novamente.

Jamais, não. Quando num dia igual a tantos outros estava sentada desanimada na beira de um tronco na floresta, uma lagarta caiu de uma das folhas que acabou por quebrar na sua gula, tombando no colo de Hylätty que serena lhe perguntou se estava bem.

Ei Siveetön respondeu entusiasmado:

- Salvaste-me a vida, não fosse por ti teria padecido pior fim. Como é possível uma borboleta linda como tu estar aqui parada a olhar o infinito sem levantar voo num dia de sol como este? Só pode ser arte do destino.

- Pois, bem me apetecia levantar voo, mas não sou capaz. - respondeu Hylätty rodando o corpo para o fazer notar suas asas peganhentas.

Ei Siveetön impulsionou o seu corpo para cima dela e iniciou processo de metamorfose criando primeiro uma seda que a abraçou por completo imobilizando-lhe as asas, e depois encerrou-se em casulo nas suas costas como uma mochila em conchinha. Assim permaneceram unidos por alguns dias, até que Ei Siveetön quebra o casulo e sai abrindo suas asas com diversos azuis, ansioso por olhar Hylätty . Ela acorda estremunhada alegra-se pelo verde que substituiu seus cinzentos, fita-o, beija os seus lábios e abre as asas soltando os restos da seda que a embrulhava, antes de saírem libertos os dois a voar sincronizados.

Às vezes tens que descer para em segurança encontrares mais alimento
Apoiares-te nas merdas pode parecer ajudar-te mas acabas por perder cor e brilho, embora possas intensificar formas
Mesmo que tenhas bom intimo nem sempre cobrir-te de mel é bom e pode limitar-te a liberdade
As limitações de uns podem ser a salvação de outros
A solução para teus maiores problemas pode vir inesperadamente de quem de repente te cai no colo
Às vezes quem te imobiliza quer-te conceder liberdade
Mesmo que integres processo de transformação com alguém não há garantias de que ambos acabem da mesma cor
Para sincronizares voo com alguém experimenta dar tempo para que a metamorfose ocorra em conjunto e previamente 
 
 Ilia Mar

SERPENTE COLORIDA E SORRIDENTE

dreamstimefree_31613Joel sempre fazia o mesmo percurso para a escola diariamente, com chuva, com sol, com neve, sempre Joel percorria o mesmo caminho que ele meticulosamente havia delineado por dias, semanas e meses, fazendo-o ladear por pinhas, pedras e caruma, dispostas com uma geometria indescritivelmente certinha e regular.

Certo dia ao passar junto à Oliveira ao fundo do quintal do Sr. Pombo Correio, uma sombra caiu-lhe repentinamente em frente ao olhar. No momento seguinte em que abriu os olhos ofuscou com tamanho colorido e brilho que emanava da pele daquela serpente que se mantinha suspensa pela extremidade no ramo mais baixo da Oliveira ao mesmo tempo que balançava ritmada e sorria para Joel. Este num misto de encantamento e medo afastou-se rapidamente pisando e tombando em desequilíbrio sobre o limite do seu querido caminho.

Prosseguiu seu percurso para a escola apressado, sem novos percalços apesar da distracção que o sucedido lhe provocou e uma certa frustração por ter estragado os limites do seu arruamento.

Passou a manhã na escola com ansiedade para regressar e compor o traço da sua estrada que se havia esbatido. Assim que, mal soou o toque de saída correu de regresso a casa recolhendo até ao local da ocorrência, mais pinhas e caruma para corrigir os estragos.

Chegado junto à Oliveira deparou-se com o caminho sem mácula no limite mas com um ligeiro desvio encurvado para a direita, desenhando uma meia rotunda em torno da árvore. Terá sido o Sr. Pombo Correio a corrigi-lo pensou, a ver se amanhã me lembro de lhe agradecer. E sem se dar conta desfez a curva que o fazia afastar um pouco para a direita da Oliveira, recolocando os limites em linha recta, a passar sobre a sombra da referida árvore.

No dia seguinte o Sr. Pombo já tinha saído para entregar correio quando Joel passou pela sua casa de modo que não pode agradecer-lhe a ajuda com o caminho.

Prosseguiu então até que passando por baixo da Oliveira, novamente é surpreendido pela sua amiga serpente, que abrindo um sorriso lhe interrompe a passagem obrigando a que outra vez calcasse os limites do caminho. Depois deixa-se ficar a balançar como se dançasse a mais bela valsa fazendo brilhar os reflexos das suas cores no ar e na natureza em redor.

Joel ainda se deteve uns minutos maravilhado com o movimento e cor, mas depois saiu correndo para não se atrasar para a escola e com medo que aquela distracção o fizesse afastar dos seus objectivos.

No regresso novamente encontrou o seu caminho rodeando em curva a oliveira pela direita, e mais uma vez corrigiu o percurso com a rectidão que lhe era característica.

Por mais uns dias a situação se repetiu, então Joel cansado de corrigir o seu caminho resolveu tomar uma atitude radical. Assim num dos regressos depois de endireitar o arruamento colocou uma rede suspensa sobre o ramo da Oliveira de onde diariamente saltava a sua amiga serpente.

No dia seguinte saiu de casa com a certeza que nada nem ninguém mais lhe desviaria o percurso ou o distrairia dos seus objectivos.

Chegado por baixo da rede deteve-se um pouco aguardando que a serpente colorida saltasse e se prendesse irremediavelmente na armadilha. Em vez disso a sua amiga deslizou suave sobre o ramo e utilizou o quadriculado da dita solução de Joel para que os reflexos coloridos da sua dança se fizessem ainda mais mágicos, distraindo novamente Joel que trôpego não evitou estragar o limite da rua junto a Oliveira.

Ficou tão furioso que saiu a correr para a escola, sempre com o pensamento na solução que poderia arranjar para evitar distrair-se com o espectáculo de luz e cor que a sua amiga todos os dias lhe proporcionava e em qualidade cada vez superior.

Pensou, pensou, procurou, procurou e encontrou um recipiente de metal, onde colocavam a sopa no refeitório, encostado a uma das paredes da escola secando. Sem que ninguém percebesse recolheu-o e levou-o consigo para colocar no sítio onde antes tinha suspendido a rede.

Susteve a cuba metálica com umas cordas sob o ramo da Oliveira e seguiu para casa confiante.

No dia seguinte, Joel saiu animado para mais um dia de escola.

Ao passar por baixo da Oliveira, sentiu um estrondo e pensou que teria sido a sua amiga a cair dentro do recipiente, alegrando-se com isso. De repente novo estrondo e um raio atinge exactamente o local onde Joel e a sua amiga suspensa e encarcerada se encontravam.

A Oliveira e Joel sucumbiram à catástrofe, enquanto a serpente colorida e sorridente protegida pelo recipiente metálico saiu incólume e feliz à procura de nova Oliveira por cima de novo caminho recto.

Às vezes quem te tenta alterar o caminho não te quer distrair ou prejudicar, mas antes garantir que te salves

Há distracções e experiências que surgem repentinamente na nossa estrada que não devemos evitar, mas antes aceitar que nos cativem nem que para isso desviemos nosso percurso

Há armadilhas que são colocadas com finalidade má que se podem inverter do nada para a salvação e servir um bom fim

MÓIA E CRISOL

 

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- Fazem-me falta animais inteligentes e interessantes! – Disse-lhe fitando seus olhos pequenos de mel, que a esta altura já só viam generosidade e grandeza no coração dele.

- A mim também… - sorriu encabulada, sentindo-se orgulhosa e encantada.

A cortesia e o diálogo fértil prosseguiu por longo período, desenvolvendo cada um dos dois uma ideia sobre o que cada qual pensava acerca do que os rodeava, a partir do que diziam um ao outro. Assim foram aprofundando a sua relação, promovendo o crescimento de ambos pelas diversas perspetivas que colocavam sobre as questões, acabando sempre por concordar no essencial, sentindo-se dessa forma felizes e preenchidos.

Tão preenchidos que não duvidaram procriar, mas apenas e somente quando ambos se acharam preparados para isso. E ainda bem que o fizeram porque trouxeram ao Mundo a descendente mais inteligente, interessante e bonita, com olhos de mel, que algum dia haveria de nascer naquele reino.

Aos domingos preparavam sempre um cesto de Ackees recolhendo cuidadosamente os que cresciam no seu quintal, para levar para o Sr. Padre Doninha distribuir entre os pobres como forma de agradecer a Deus, pela dádiva que Este lhes trazia em cada dia em que assistiam ao crescimento da sua filhota inteligente, interessante e bonita.

E só Deus sabe o que isso lhes custava, pois além da árvore do seu quintal ser única naquele reino, todos lá em casa adoravam os seus frutos e comiam-nos com frequência, já que a mamã introduzia o seu sabor exótico em todos os petiscos que preparava, com o cuidado que apenas uma mãe conhece, escolhendo somente os mais maduros e retirando cirurgicamente o seu centro venenoso, para proteger-se e aos seus.

Além de todos os petiscos que fazia havia uma outra delícia – segundo dizia papá - que ela preparava com especial cuidado e com tal carinho e amor, que mesmo demorando-lhe horas para terminar sempre o concluía com um sorriso e um beijo demorado a papá, antecipando a aprovação que ele lhe dava depois da prova que dele fazia que era sempre única e final. Chamava-lhe o Elixir do Amor, e era um licor forte de Ackee que papá sempre bebia depois do jantar curando-lhe a canseira e má disposição do dia.

E assim viviam cada vez mais apaixonados, felizes e agradecidos a Deus por isso, que milagrosamente lhes retribuía tamanha devoção mantendo a produção de Ackees, pela árvore do seu quintal, constante ao longo do ano.

Certo dia, depois de papá sair para trabalhar, uma fêmea muito idêntica a mamã acompanhada de sua filhota muito idêntica a mim, apenas diferindo nos olhos, porque ao contrário dos nossos que eram mel os delas eram esmeralda, fizeram-se anunciar à nossa porta, pedindo encarecidamente alguns Ackees, pois um pobre que tinha recebido um do Sr. Padre Doninha, lhes havia dito que ali os encontrariam e estes eram muito importantes para elas, mas não teriam dinheiro para pagar por eles.

Os pequenos olhos mel de Mamã arregalaram-se e miraram a fêmea e sua filha de cima a baixo, para a seguir perguntar:

- E vocês estariam dispostas a ajudar-me com a lida da casa a troco dos Ackees que precisam?

- Sim claro, com gosto o faríamos. – Respondeu a fêmea mãe, agradecida pela oportunidade.

A partir daí Mamã vivia sempre com um sorriso nos lábios enquanto lia serena e calmamente o seu livro junto à janela, esperando papá regressar do trabalho no final do dia, para abraçá-lo e beijá-lo longamente. Depois enquanto papá tomava banho, preparava carinhosamente o jantar, tarefa de que, mesmo com a ajuda que tinha agora durante o dia, nunca abdicava.

Com o passar das estações, a minha relação com Móia foi-se aprofundando, já que sendo eu mais madura apenas 3 meses, partilhávamos diariamente ideias, experiências, pensamentos e segredos.

Tornamo-nos assim nas melhores amigas de sempre, e ambas já tínhamos percebido que seria para sempre, embora sem tomar consciência dos verdadeiros afetos que nos uniam e suas razões.

Daí que, para sempre eu terei guardado o seu segredo sobre o seu nascimento e ela o meu sobre o meu calvário, que tinham ambos a mesma origem embora de forma antagónica. Eu angustiava pela presença de um pai e ela pela sua ausência.

Um dia, depois de muito insistir Móia falou-me também sobre a verdadeira necessidade que as motivava, a ela e a sua mãe, a trabalharem em nossa casa tantas horas por semana a troco de uma cesta rasa de Ackees. E quanto essa razão era válida e humanista!

Mas como igualmente me pediu segredo, também este nunca cheguei a revelar a mamã, nem ela nunca se interessou em sabe-lo.

O tempo foi passando e Móia cada vez mais se preocupava comigo e com meu sorriso, que apenas ela sabia, que invariavelmente se invertia, quando ela e sua mãe saíam e papá chegava.

E mamã sentia-se tão feliz com a ordem e limpeza do seu lar e tão amada por papá que se alegrava e se sentia completo, cada vez que chegava a casa e se deparava com um ambiente sereno, cheiroso e que o algodão não enganava saindo branco e imaculado a cada passagem em cada ínfimo canto da casa. Sempre papá supôs que a harmonia e higiene que encontrava no seu lar era obra da sua dedicada esposa.

E tudo isto… pensava mamã, a troco de uma pequena porção do que naturalmente brotava no nosso quintal. Não se poderia sentir mais agraciada por Deus, assim que continuavam a cada Domingo, ela e papá a reunir os Ackees mais maduros e bonitos para colocarem na cesta que, como forma de agradecimento a Deus, entregavam abnegadamente aos pobres.

Com o passar dos anos e como forma de responder positivamente ao bem-estar que a mãe de Móia lhe proporcionava, mamã acabou por também aprofundar a sua relação com ela. E esta depois de algum tempo sentindo-se à vontade e com confiança em mamã, revelou-lhe que Móia tinha uma irmã gémea – Crisol, cujo nascimento difícil, a tinha tornado diminuída física e mentalmente e que necessitava de diariamente tomar o suco de Ackees para que seus músculos não definhassem fazendo-a ter dores tão insuportáveis que a tornavam violenta. Falou-lhe ainda que ambas haviam sido consequência de uma relação com um animal que já tinha parceira e que não quis por isso assumi-las, mas que ela não o teria sabido até emprenhar e que nunca teria sequer conhecido a sua parceira, pois quando soube afastou-se sem nunca mais o procurar.

Quando mamã emprenhou novamente com dificuldade e com dificuldade passou toda a gestação de meu novo irmão - apenas se levantando da cama para preparar os petiscos e o Elixir do Amor com que presenteava o seu amado pelo amor que deste recebia diariamente, ou para ir a missa com ele entregar a cesta de Ackees - o meu martírio aumentou de intensidade.

Somente encontrava conforto nos afetos que trocava com Móia, que sempre tinha uma piada inteligente e desconcertante, para me colocar no rosto um sorriso, como arco íris a abrir entre a chuva que caía incessante de meus olhos mel.

Certo Domingo em que as temperaturas baixaram de tal maneira que a árvore de Ackees mantinha pequenas gotas geladas suspensas em seus ramos juntamente com seus frutos, mamã não quis arriscar sair para a missa pois sentia-se cada vez mais debilitada e fraca. Papá decidiu então que também não iria sem ela, preferindo ficar a seu lado velando o seu descanso.

Na segunda-feira, mamã sentindo-se culpada pela lacuna da entrega de Ackees aos pobres, pediu então a Móia e à mãe que fossem estas a levar a cesta entregando-a ao Sr. Padre Doninha quando passassem pela igreja no regresso a sua casa.

No dia seguinte mamã recebia a visita do Sr. Padre Doninha, que lhe trazia votos de rápidas melhoras e os melhores conselhos velados na conversa mais Alzheimeriana jamais ouvida.

- Que linda irmã! Está ótima! O seu filhote nascerá saudável e belo com a graça do Senhor.

- O Senhor sabe que eu mereço! – Responde mamã terna e pausadamente.

- Claro que sei, conheço bem a sua generosidade. E o Senhor que é bom pastor também conhece bem as ovelhas do seu rebanho, mas cabe-nos a nós afastar de nós ovelhas negras que emprenham de quem não lhes pertence e podem envenenar nossos lares e nossas vidas. Os bastardos são igualmente filhos de Deus não tenho dúvidas, mas de um Deus menor convenhamos…. Porque ouça irmã, este irmão que lhe entrega este ensinamento, que eu sei do que falo, são também um bocadinho filhos do demónio que tenta nossos irmãos e os faz afastar-se do caminho do Senhor. Por isso sempre proteja o seu lar, e tenha atenção que o Demo sempre nos tenta para assumirmos atitudes estúpidas, mesmo sem sabermos, nunca se sabe quando estamos a deixar entrar quem jamais deixaríamos, se conhecêssemos sua verdadeira história…

Mamã acenou com a cabeça, como se o tivesse entendido, sem, na verdade, fazer ideia do que falava.

Apesar disso e talvez por isso mesmo, mamã registou cada palavra que o Sr. Padre tão objectivamente colocou no seu discurso, e tentava desmontá-lo quando entramos eu e Móia no quarto, de mão dada, sorridentes e estupidamente idênticas… De repente mamã olhou Móia nos olhos e empalideceu… encontrou-lhe a cor e o brilho que era tão seu conhecido e que tanto amava e sentiu-se destroçada com isso.

Nunca mamã o chegou a admitir, mas desde essa altura passou os dias em emoções inversas às minhas, triste e angustiada na ausência de papá e aparentemente serena e feliz na sua presença.

Certo dia conversando com Móia disse-lhe que já sabia como por fim ao calvário que há já tantos anos me fazia infeliz e angustiada e que era um plano infalível, que não levantaria suspeitas sobre ninguém. Ela acabou por concordar comigo da sua infalibilidade e dispôs-se assim a ajudar-me.

Combinamos então que na próxima sexta-feira em que mamã fizesse o Elixir do Amor substituiríamos os Ackees maduros por outros verdes engenhosamente tratados por nós para parecerem maduros. E assim fizemos. Antes de mamã descer para preparar o seu maravilhoso licor, que fazia agora com menos entusiasmo e atenção, trocamos os Ackees maduros já apartados, que se encontravam no frasco que ela colocara no balcão, pelos nossos que eram verdes mas foram amadurecidos com a imensa arte e engenho de Móia.

Quando saíamos da cozinha com os Ackees maduros atrás das costas a mãe de Móia entrou e olhou-nos curiosa, seguindo nossos movimentos com o olhar, mas nada disse.

Aproximou-se do recipiente apalpou os frutos e depressa percebeu o que havíamos feito. Mesmo sem entender as nossas razões, não hesitou em retirar dele os frutos verdes camuflados e recolocar novos frutos maduros, que retirou da cesta do outro lado da cozinha.

Quando mamã entra na cozinha e vê o balcão com os frutos que saíram do recipiente e a mãe de Móia acabando de recolocar dois últimos no frasco. Exalta-se como nunca antes havia acontecido com ela, gritando de forma absurda, o que nos conduziu a ambas de regresso à cozinha:

- PORCA! RELES! Cospes no prato que te alimenta e acalma as filhas! Querias matar o meu Amor só porque ele não ficou contigo, sai já desta casa…SAI….SAI – mamã berrava exaltada ao mesmo tempo que empurrava Móia e a sua mãe pelo corredor fora.

Esta que apenas nesse momento percebeu a encruzilhada que o destino lhe havia montado, apesar disso, ainda foi capaz de balbuciar:

- Desculpe... eu não queria, eu arrependi-me, os envenenados são os que estão no balcão...

Sem querer ouvir mais histórias de cobras que nos assomam a vida para envenenar nosso parceiro, mamã expulsa Móia e a sua mãe de nossa casa, sem permitir que esta abrisse mais sua boca incrédula, e sem piedade por mim, que chorava desesperadamente com o afastamento a que íamos ser forçadas, empurrando-as para a rua com tal força e fúria, que estas caíram inanimadas exactamente no momento em que uma manada de Búfalos passava em fuga dos caçadores.

Mamã regressa pávida e serena à cozinha para preparar o seu Elixir do Amor agora que este não tinha ameaças por perto. Então despeja os frutos maduros no caixote do lixo e coloca novamente os frutos verdes camuflados que se encontravam no balcão, no recipiente, para a seguir proceder como habitual na preparação do licor, sem se dar conta do terrível erro.

....

- Mãe estás a morrer? Por favor esclarece-me? Não posso ir com a dúvida. – A mãe arrastou sua pata até a de Móia que segurou trémula, olhou-a candidamente sem forças para movimentar a cara no mesmo sentido, e disse:

- Não te preocupes filhota, não posso morrer porque já antes me mataram...mas sabes que sempre estarei contigo... – Fechou os seus olhos esperança e Móia os seus com ela, para num último suspiro partilhado, as suas palavras voarem de mão dada até à eternidade.

A mim que tinha corrido para a rua, com lágrimas densas escorrendo pelo meu rosto, assim que mamã me soltou para tratar do licor, foi-me dado o privilégio de assistir de perto à morte de dois anjos, enviados de Deus à terra.

E essa tornou-se para sempre na imagem mais bela, intensa e emocionante que retive da morte e do sofrimento.

Da fruta amadurecida, sempre é mais fácil retirar-se-lhe o veneno porque estará circunscrito

Não confies em frutos verdes camuflados de maduros, esse pode ser apenas o disfarce para o veneno que possuem

Às vezes o veneno não está no fruto que te tentam entregar mas no que queres receber

Não julgues o fruto que te entregam como envenenado sem perceberes antes a origem do veneno que nele encontras

Um fruto que aparentemente é venenoso pode conter em seu interior substâncias benéficas e calmantes que só actuam se fores capaz de lhe extrair o veneno que nele existe ou percebeste

Não te apresses a actuar movida por preconceito que te causa dor, porque podes ainda aumentá-la de forma irreversível

Quem te conduz a ver o errado, expondo seus próprios erros, sempre estará a fazê-lo impelido por razões nobres e certas

O essencial é invisível aos olhos pequenos mas não às almas grandes

Atitudes estupendas podem sempre ser julgadas como estúpidas, tudo depende do tipo de pessoa que as julga e dos preconceitos que o seu julgamento encerra

Maria João Leal

 

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