ALMAS GÉMEAS

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– Sabes que a vida não é como se fala nos livros. Nem sempre a princesa é resgatada da torre onde se encontra enclausurada, por um príncipe que chega num cavalo branco, com olhar profundo e sorriso cândido, filha. Por vezes terá que ser a princesa a descer da torre a pulso para alcançar que o seu príncipe a veja e tenha oportunidade de se apaixonar.
As palavras, que meu pai escolheu para ilustrar a minha clausura de dois anos a ler e devorar livros e histórias de outros tempos, acabaram por me fazer sair do quarto e começar a ler no alpendre com o sol a bater-me no rosto, imaginando com fé que o meu príncipe pudesse passar pelo caminho sem fim que conduzia a nossa casa nos confins da montanha. 
Enfim, mais tarde percebi que o lirismo dos livros que me iluminavam tinha-me contaminado.
Não deixei nunca porém de acreditar que algures por esse mundo andaria o príncipe, o meu príncipe, aquele que abriria um sorriso e o olhar e me faria tombar de encantamento de forma instantânea. 
Agora revendo nossa história, deixei de acreditar em príncipes. Tu chegaste com o sorriso aberto e o brilho no olhar que me encantou. Mas antes fosses o sapo que te pensas, e o assunto estaria resolvido com um beijo.
Assim não, desacreditei de príncipes e passei a acreditar em almas gémeas. Aquelas que se conhecem sem conhecer, que se ouvem em silêncio e comunicam por sinais indeléveis e imperceptíveis, aquelas que se sentem na ausência apesar da camuflagem, aquelas que se alegram pelo bem estar da outra ainda que sem qualquer beneficio, aquelas que torcem genuinamente pelo sucesso da outra de forma abnegada, aquelas que na sua passagem pela nossa vida arrastam estranhas coincidências, aquelas que se amam quer tenham ou não percebido ou admitido isso. Nessas acredito. Acredito que algures nesse mundo estará a minha alma gémea. Pena que ela ainda não o tenha descoberto ou se o descobriu ainda não o admitiu.

Ilia Mar

QUANDO ACORDO A FITAR-ME DENTRO…

 

Quando acordo a fitar-me dentro

meu olhar se torna cinzento

meu sorriso forçado

meu choro contido

e nem o sol me aquece

nem os sorrisos de crianças felizes me iluminam

Depois falho pontuação esqueço o refrão

e sigo

prossigo caminho sem olhar para trás

sem abrandar o passo

que carburado por energia de revolta

Há de alcançar o que a alguns há de escapar

E se o tempo ajudar abrirei a pestana

E o verde turbará íris tristes e sem vida

Dissolvendo a cor em poesia

Ilia Mar​

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TE DESEJAREI…

Te desejarei mesmo que não queiras saber disso
Te despirei de inseguranças e medos contidos
Me desnudarei de segredos e preconceitos antigos
E nos encontraremos lá onde começa o sol e culmina o riso

Se for capaz de controlar minha impaciência
E nisso me ajudar a tal ciência
Poderemos seguir em canoa de canas verdes
Sem leme e sem remos, 
Levados apenas pelas nossas vontades
Mas nunca temendo enfrentar as verdades

Que velejar grandes barcos 
Com ventos pequeninos 
Atrasa nossa viagem 
E pode mudar a paisagem
Além de criar embaraço 
E até redemoinhos
Que nos colocam cansaço 
E nos afastam caminhos

Ilia Mar

 

TRANSGÉNICO DE PEPINO

Se as paredes falassem… que ouviríamos nós em corredores indiscretos que abrem fendas nas politicas de segurança e privacidade. Tumbém cuero! Cuero ouvir o que dizem os novos e velhos que negoceiam entre dentes uma transformação na produção agrícola ainda mais ridícula do que se prepara para as águas. Ridículos somos todos a ler e ouvir falar de futebol, já para não falar na casa que diz tem segredos, cheia de adubo bom para tomates e pimentos (os dois já patenteados), e renegarmo-nos a posição passiva de vencidos antes mesmo de perceber que existe uma batalha em curso. A terra que é minha, que é vossa que é de todos, se bem trabalhada com água e cáca que é minha que é tua que é vossa que é de todos, deveria ser capaz de produzir o alimento necessário para a população mundial, e com investimento trabalho e condução de recursos onde necessários. Só precisamos de ideias melhores que as dos idiotas mores que proíbem agricultores de produzirem, trocarem venderem sementes naturalmente, para obrigar o povo a comer sabe-se lá bem o quê feito de quê. Ao menos a cáca que aduba a atual agricultura biológica, não entra na formula e na composição dos alimentos que produzimos e consumimos, do futuro milho tomate ou pimento alguém sabe?
Vai-se a ver e ainda vão misturar a cáca de meia dúzia de iluminados que se candidatam em casting, com urina de jacaré, para produzir transgénico de pepino, que deixará de ter propriedades benéficas para a pele minhas senhoras.
Abram os olhinhos montem guerra ao pepino preparado em laboratório.
Gostaria de saber o que pensam depois fazer à terra. É capaz de ser apenas abrir buracos para jogos de golf. Que paisagens fantásticas teremos de futuro, sem amendoeiras em flor, sem oliveiras, sem sobreiros, sem palmeiras, sem sombra, com bolas em buracos e tacos, e pestes.
Cum carago que ninguém ‘tá ver o que se prepara com capa de Santo?

ENCONTROS E DESENCONTROS

A vida é feita de encontros e desencontros
Uns se encontram no desencontro
Outros se desencontram no encontro
É feita de dar e receber
Uns recebem sem dar
Outros dão sem receber
É preenchida de ditos e não ditos
Uns dizem sem dizer
Outros não dizem dizendo
Completa-se de dias e noites
Uns anoitecem os dias
Outros amanhecem as noites
Integra ires e vires
Uns vão vindo
Outros vêm indo
Engloba quereres e não quereres
Uns querem não querer
Outros não querem querer
Sempre traz em paralelo, o ser e o não ser
Uns são não sendo
Outros não são sendo
É um conjunto de aparências e ilusões
Uns se iludem nas aparências
Outros aparentam iludir-se na ilusão
É no fundo feita de contradição
Que te cria adição
E te conduz ao caixão
Sem qualquer certeza em mão
Assim mesmo que o atrever reverta
Encontra-te no encontro
Dá muito e receberás outro tanto
Diz o que deve ser dito
Cala apenas o que não precisa de palavras para ser entendido
Amanhece como se estivesse a anoitecer
Anoitece como se quisesses ver o dia nascer
Quando fores vai e atreve-te a não te ir sem vires
Quer com força e vontade enquanto não te doer de tanto querer
E sê, sê sempre e nunca te arrependerás de não ter sido
Dessa forma nunca te iludirás de aparências
Ou aparentarás iludir-te na ilusão
E o intervalo “do berço ao caixão”
Deixará o orgulho de ter feito o que deveria ter feito
E jamais a melancolia do que ficou por fazer

Ilia Mar

 

O SILÊNCIO NÃO FALA

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É pecado permitir que os silêncios falem por si, fazendo-nos ouvir as mentiras que a imaginação persegue e que nos arrastarão para lugares onde os frutos amadurecem rápido de mais acabando por cair de podres, sem chegar a crescer na escala de brix. 
É inocência interpretar silêncios a nosso belo prazer e tendencialmente embelezar o quadro, permitindo-nos ideias que nos dão ânimo, mesmo que se situem em cenários irreais e líricos. 
É ridículo que apesar de sabermos disso teimemos em prosseguir no erro de interpretação. 
Porque o calar é uma palavra que nem é verdadeira nem mente, é uma ausência de emoção, é um vazio clarão do que nunca alcançarás ver porque não ouves. Assim que nesses casos te deverás resignar à posição de mudo.

Ilia Mar

ONDE COMEÇOU?

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Se a tua reflexão não te trouxer até mim, não frustrarei.

Sabes que os líricos se conformam com insucessos de forma rápida, pensam sempre que é porque algo melhor estará a  sua espera no capítulo seguinte. Só torcem para que nenhuma página se cole, isso sim seria desagradável e inoportuno. Saltos de narrativa que nos deixam vazios de raciocínio é que deverão ser sempre combatidos, sob pena de virar contracapa sem compreender o que nos conduziu ao fim e sem perceber onde foi o inicio.

 

Ilia Mar​

A COVARDIA

Nada justifica que alguém responda a actos de gentileza com actos de grosseria. E se alguém o faz é porque deixa muito a desejar em termos de caracter. Só alguém com muito pouco caracter responde a gentileza e generosidade com má educação, com arrogância encapuçada de agradecimento, com petulância disfarçada de inocência. Ignorância e cegueira desmedida cabem também nas ilações que se podem tirar deste tipo de comportamento. Alguém assim não é digno de ter segunda oportunidade na vida, nem de receber amor até à morte. Alguém assim penso que nunca terá efetivamente tido sequer uma verdadeira oportunidade na vida porque a todas afasta com a mesma falta de chá e bondade.

Ilia Mar

HÁ COVARDES DE TODOS OS FEITIOS

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Há covardes de todos os feitios. Os que se ocultam nas barricadas da tecnologia são de todos os piores. Há covardes grandes e outros que não são grande coisa. Há covardes pequeninos que nem ratos, caladinhos, caladinhos que nem a eles mesmos se chegam a ouvir. Há cobardolas que além de actos de cobardia praticam actos de bigamia, e ainda misturam os dois. Há cobardezinhos que nunca atingem ser felizes porque se escondem atrás do que consideram certo ou estereotipado e assim emudecem e ficam moucos e cegos para o diferente e não usual. Depois a sua cobardia apenas lhes permite vislumbrar um caminho com os cenários e sequência que já são seus conhecidos, e do resto da sociedade, metendo a viola ao saco assim que algum factor altera a posição dos objectos no espaço, abandonando cobardemente a cena antes mesmo das pancadinhas de Molière os motivarem a actuar. E há os covardes que actuam disfarçadamente como se não estivessem a assumir actos de cobardia, mas de sensatez. Chegam a disfarçar tanto e tão bem que até a eles próprios, pobres cobardes, se convencem.

Ilia Mar

– TO WONDERLAND PLEASE!…

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quando acordares já terei partido

aproveito a boleia do destino

e parto rumo ao que me faz falta

imagino um taxi amarelo a recolher-me

– To Wonderland, please!

e no matter what lá chegarei

depois de me instalar

enviar-te-ei postal pelo Natal

desejando-te festas e novo ano com Paz

orando para que esta sempre te preencha

e seja capaz de te fazer sorrir, cerrar dentes e explodir

 

Ilia Mar​

FRUSTADA VS RESOLVIDA

Sabe qual a diferença entre pessoas frustradas e pessoas resolvidas?
Pessoas frustradas seguram covardemente as palavras, comem ódios e engolem raivas que depois descarregam em actos. Pessoas resolvidas, agem naturalmente não temendo verbalizar as palavras que lhes apraz, independentemente de criar ódios ou fazerem os outros expelirem suas raivas.

Ilia Mar

O MEDO

Ela viu-o mas ele não. Trazia agarrada uma venda negra na visão e um muro alto em torno do coração. Talvez por não ter sido capaz de ultrapassar o seu ciume do passado, nunca terá sentido saudades do futuro. Nem oportunidade deu a que as vendas se fizessem cada vez mais lassas acabando por cair, permitindo-lhes vislumbrar com olhares novos, o horizonte. Não, não foram os caminhos do destino que os afastaram, mas a mão larga da sua consciência empurrando sua sensatez a desviar os trilhos que os conduziriam juntos a futuros mais prósperos. E isso porque percebeu que o que a loucomotivava, poderia fazê-lo perder a sanidade e o controlo sobre a sua histórica sensatez e paz.

Ilia Mar

«Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe.», Henry Miller, December 26, 1891 – June 7, 1980

O PRECONCEITO

 

Ela viu-o mas ele não. Não viu claramente, pois ofuscou em preconceito, que o que de facto a loucomotivava eram flores nas varandas, crianças brincando na rua e cachorros e gatos em harmonia. Assim afastou-se convencido que para ela o mais importante da vida era o climax quando em boa verdade o que mais a motivava era o beijo. O beijo humido e carinhoso arrepiando peles de galinhas, e acariciando pintaínhos amarelos pálidos, fofinhos e inocentes. Mas ao que parece ele nem apreciará pintaínhos amarelos pálidos, leves e fofos, pois recordam-no histórias de criança que terminaram sem conclusão, e assim por via da superstição nem sequer ousou iniciar a sua, não passando da introdução.

 

Ilia Mar​

A DÚVIDA

Ela viu-o mas ele não. Percebendo isso ela pôs-se a jeito e escancarou todo o seu livro de segredos frente aos seus olhos, que incrédulos se cerraram, como quem não quer enfrentar o sol de frente porque este pode queimar nas horas de pico. Será que queima ou apenas escalda, será que pode ser apenas tépido algum dia. Será que proteger visão e pele junto ao coração não será suficiente para evitar queimaduras, escaldões ou encandeamentos momentâneos. Refletiu dias a fio e concluiu que existia ainda o risco de que, cada uma das soluções de proteção encontradas fossem faliveis, pelo que por via das dúvidas não iria arriscar energizar.

Ilia Mar​

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