EXEMPLOS PELA POSITIVA DO QUE PODERÁ DEDICAR

Tecer Ilusões

Quando chove é um bom dia para tecer ilusões, resgatar corações apertados, cicatrizar buracos e gerar sonhos há muito ansiados.   Apanhar-te-ei a meio caminho do céu, e colheremos as estrelas que as nuvens libertarem pelo percurso, para entregar a avozinhas ternas que sempre se encontram no fim dos nossos momentos bons.   Se encontrarmos algum cordeiro com pele de engano pelo caminho, dispensamos-lhe também algumas estrelas. Estas incendiarão a sua veste, e reorientarão as suas atitudes, revelando as suas virtudes.   E sem que nos apercebamos o sol abre, um arco-íris surge no horizonte, e mesmo que não lhe alcancemos o final, a cor tombará em nossas vidas tons pastel e purpurina, que nos farão regressar a vontade de concretizar e a alegria de estar vivo.

Ilia Mar

 

 

Leva-me ao Mar meu Amor

Leva-me ao Mar meu Amor Vamos ouvir as gaivotas sobre o entardecer O sol a pôr-se nos nossos corações serenos A lua a abrir luz no horizonte E a acompanhar as nossas palavras soltas O inquieto correr das ondas Prometo-te cobrir o luar de encanto E desinibir o areal que quieto Aguardará ansioso a chegada de Tétis Para com ela acordar preenchido De estrelas cadentes de desejo E que a vida nos sorria na alvorada E as gaivotas em uníssono cantem à brisa matinal Que aqui se selou um conluio em nome do bem sem mal

Ilia Mar

 

 

Acordei com poesia no sangue

Hoje acordei com poesia no sangue…com brisa na guelra, com raios de sol na respiração e com fios de luz no suspiro. Estou certa que se tivesse o peito aberto às balas tu sararias com cuidado minhas feridas em chaga, farias curativos com sedas da Índia cobertas de ervas milagrosas da Amazónia e fitarias com atenção a evolução da cicatriz, permitindo-te cair no sono, apenas quando toda a ausência de pele fosse refeita. E o mais extraordinário é que eu própria velaria eternamente teu sono se os desígnios do destino te adormecessem antes do tempo. Acariciaria teu rosto depois de o barbear delicadamente, beijaria tuas pálpebras fechadas e te sussurraria diariamente as palavras a que chamávamos nossas, para que jamais te esquecesses de nos resgatar.

Ilia Mar

 

 

Sabes porque são bocas da reacção?

Porque não é verdade que acorde todas as manhas com teu beijo carinhoso na testa, apesar de nunca estares.

Não é verdade que, ao passar na tua porta borboletas coloridas esvoacem na base do cinto de segurança que me traz ainda agarrada à realidade.

Ainda está para nascer quem prove que anseio por uma palavra tua diariamente para que a luta faça sentido.

Não é realidade a que imagino nos teus braços quando me deito para sonhar com melhores amanhãs.

Não é verdade que as palavras afeto, carinho e meiguice tenham ganho especial significado no meu dicionário desde que te conheci.

Jamais conseguirão provar que para mim te estejas a tornar no fim e princípio de tudo.

E sabes que mais, na verdade quando escrevo textos como estes penso o que terá acontecido para ter passado ao lado de uma carreira política de sucesso.

Depois ao lê-los descubro… aconteceu ser poeta!

Ilia Mar

 

 

Querido Pai Natal…

Querido Pai Natal, este ano traz-me quem me inspire mas também quem me respire.

Aproxima de mim apenas quem não tiver medo de amar.

Apenas quem for capaz de inspirar pela palavra e gesto uma alma criativa inquieta que devolve na volta figuras de estilo de arrepio.

Quem seja capaz de colocar em cada caricia um arco íris aberto, ao fundo de uma brisa cálida e campestre.

Quem consiga alcançar trazer o mar a terra sem sabor a sal e guerra.

Quem me leve ao céu da sua boca como quem conduz anjos ao inferno.

E quem me traga o pequeno-almoço à cama como se o dia não fosse acabar nunca.

Quem me respire ao levantar, a meio da jornada, ao chegar a casa, ao deitar na cama.

E que não aguente esperar o dia seguinte para me dizer que me ama.

E que precisa de mim para adormecer sereno e quente este inverno e os seguintes, e os seguintes, e os seguintes.

Ilia Mar

 

 

Que é preciso para que me ames?

Que segredos mais queres que te desvende para que me ames? Posso contar-te que amei primeiro os animais, que adorava cães, gatos e pintainhos. Que nunca refreei vontade de brincadeira. Nem após os raspanetes que levei por não manter a roupa limpa ou seca, nem após o sofrimento de matar uma boneca tirando-lhe a cabeça em cirurgia, nem após dar fim a brinquedos mecânicos por pretender perceber o seu funcionamento. Que sempre fui muito introvertida na presença de rapazes, que sempre lia e estudava ouvindo musica, que sempre sonhei com um amor e uma cabana. Que sempre me indignei e insurgi contra as injustiças e ingratidões. Que sempre me posicionei junto dos fracos e desprotegidos, e que sempre me identifiquei com minorias. Que tenho muita dificuldade para engolir sapos, a mesma que tenho para soltar a franga, ou fazer das tarefas um bicho-de-sete-cabeças, ou tirar o cavalo da chuva. Que as primeiras histórias que li e me envolveram foram fábulas ilustradas. E que os romances que mais me entusiasmavam eram de autores de língua portuguesa. Que amo a minha família, a minha pátria, e o meu país. E agora já és capaz de me amar um ‘cadichinho mais?

Ilia Mar

 

 

Coração de mãe

Coração de mãe é o músculo mais elástico do corpo do ser humano. Aperta até ao infinito em cada tosse, a cada sangue que se solta do nariz, a cada febre, a cada dor. Alarga brutalmente a cada sorriso, a cada vitória, a cada sucesso escolar. Encolhe tremendamente quando se ausenta a comunicação, quando se sente tristeza, quando se pensa problema. Fica preso por um fio e por vezes chega mesmo a saltar-nos para as mãos quando sofrem, quando choram, quando não alcançamos trazê-los até nós. Estica como nunca tornando-se grande de mais para encaixar no peito quando se assiste a uma formatura, um prémio, uma realização, um casamento, um nascimento. Aí entra o coração de avó, que é mãe a dobrar, a saltar novamente do peito com as maleitas, com as ausências, com os choros. E a preencher o peito com os abraços, com os beijos, com as gargalhadas, com as cumplicidades, com os segredos.     Ilia Mar, mãe — a sentir-se com coração apertado…

Ilia Mar