QUE NUNCA TE SATISFAÇA QUEM TE TRATE POR MENOS QUE PRINCESA

 

Que nunca te satisfaca quem te trate por menos que princesa.
Porque quem comeca por te tratar por princesa por certo te elevara a rainha de um reino onde so caberao mais fadas e santas.
Onde a coroa por muito pouco luxuosa que seja sera sempre colorida e recheada de caramelos e borrachinhas, como aquelas que se compravam com as pesetas da nossa infancia.
Na adolescencia me sinto, como quando passavas vestido de preto e com umas botas exatamente como as minhas. Pelo menos isso tinhamos em comum, as botas pretas.
Lembro-me bem delas – nessa altura a minha timidez colocava o meu olhar mais proximo delas do que de ti – do teu charme peculiar, do corpo bonito, do olhar que ria muito mais do que sorria…
E quem sorria em deleite era eu!
Engracado como ha pessoas que nos marcam e que sabemos que a elas regressaremos, nesta ou noutras vidas, certamente.
E hoje que nos reencontramos sem botas e com tempo, que nao nos falte a vontade de agarrar o momento.

Ilia Mar

 

QUANDO O OUTONO CHEGAR

Quando o Outono chegar e cheirar a castanha assada pelas ruas da cidade, vai olhar o mar, aprecia o vai vem das ondas deste Atlantico que nos banha, e recorda…

Relembra o que criamos, busca na memoria a forma como nos recriamos, e perceberas o sentido de agarrar o findavel, segurar com forca o inevitavel, e nao deixar escapar o irrecuperavel.

Eu penso mesmo que a vida ‘e feita de tudo isso, desses “ ’aveis” que nos deixam o gostinho na boca, o sorriso no olhar, e a auto-estima num altar.

Assim, cultiva-os como se a Primavera nao aguardasse a chegada das andorinhas para comecar, ou o Inverno saisse apressado nao deixando os ursos sair do sono, para se por andar. Aduba-os e rega-os como se o Verao entrasse a queimar e saisse a medo e ‘a sede, sem avisar.

Porque quando o Outono chegar e cheirar a castanha assada pelas ruas da cidade, vais estar 4 estacoes ‘a frente novamente, inevitavel e irrecuperavelmente.

Ilia Mar

AMARELOS

Sabes o que espero de ti? Amarelos… Amarelo de sol, amarelo de pôr de sol sob o mar, amarelo de casinhas felizes, amarelo de alegria sem fim, amarelo de carinho.
Lembras-te do tempo de nós, que não identificamos claramente, em que julgávamos receber mais sol com janelas amarelas?
Na verdade o brilho saía de dentro, e nós nem dávamos por isso.
Brindávamos a vida com digestivos coloridos todas as noites e… nesse tempo em que aquecidos em lume brando de invernos pouco frios, escaldávamos o espaço de suave odor a amor, tudo nos parecia faiscar amarelos e laranjas em cascata.
Depois extasiados, cozíamos em banho-maria sonhos de melhores amanhãs. E ao nascer do primeiro deles, despertávamos com sóis atrevidos que nos entravam quentes por frinchas de portadas mal fechadas, e nos animavam a acolher a vida com entusiasmo.
Nesse tempo queria estar… contigo.

Ilia Mar

A VIDA É FEITA DE GOMOS

A vida é feita de momentos e os momentos são feitos de gomos.

Gomos de bem-estar, gomos de só querer estar, gomos de quem nunca vai deixar de estar, gomos de quem tanto quer ficar.

Gomos doces e amargos, gomos belos e menos bonitos, gomos tristes e saudosos, gomos cómicos e hilariantes, gomos de paz e encanto, gomos de esperança e de pranto.

Gomos de muito e outros de tanto.

Gomos de música, gomos de literatura, gomos de arte.

Gomos à parte.

A vida só se compreende em dualidade, que encaixa em pares, e sempre completa ciclos perfeitos por muito que a quente te pareçam tudo menos isso.

Lá à frente quando tiveres lá atrás suficiente para perceber, terás a prova disso.

Embora te possa parecer que ficaram ciclos por fechar, que ficaram nós por desatar, que deixaste imperceptíveis por perceber, o que ocorreu assim ocorreu por alguma razão que te vai ser dada a conhecer mais à frente.

Assim que o meu desejo é que sempre tenha nós para perceber, imperceptíveis para fechar e ciclos para desatar, porque desses é feita a minha vontade de caminhar em frente, a cenoura que me faz correr por vezes, ansiosa pelas respostas que a vida me indicará mais adiante no tempo.

Enquanto isso aproveito todos os gomos com que me tentas como quem colecciona cromos de jogadores do Vitória dos oitentas.

DO QUE HAVIA NADA FALTAVA

 

 

Havia um jardim numa varanda
Havia um azevinho aguardando o Natal
Havia um quadro minimal
Onde o mal não entrava
Havia um vazio no peito
Uma incompletude
De ansia de amor feita
Havia um entusiasmo curto
Em breves momentos seguro
Havia um palhaço nas escadas
Uma malabarista nas traves
Alguns animais amestrados dançando
E também dois anjos sem asas
Havia uma mente repleta de pequenos nadas
Esperando no cais o navio que os haveria de embarcar em muitos
Havia vontade,
Havia verdade,
Havia irmandade
E do que havia
Nada faltava

 

Ilia Mar

 

HÁ DIAS EM QUE NOS APETECE

Ha dias em que nos apetece…Nos dias em que nos apetece, parece que o tempo aquece, que a primavera se antecipa, que toda a natureza celebra em festa. Nos dias em que nos apetece, os odores e sabores acentuam-se, as ideias iluminam-se, as noites amanhecem amenas, as beatas saem para a missa com um sorriso nos labios, os padres aguardam na sacristia os abracos. Nos dias em que nos apetece, os gatos ronronam sob telhados de zinco, os caes sacodem a poeira da noite em calcadas portuguesas, os carros passam sem ruido, a musica soa ao longe no adro da praca, as borboletas desencasulam em coreografia pensada, as formigas saem em fila para o pao das cinco, a vaca torna-se do boi a maior aliada. Nos dias em que nos apetece, o tempo passa apressado, as estacoes surgem-nos em percurso cadenciado, o rico fica fragilizado, “o pobre leva uma rica vida”, o criminoso ‘e apanhado na ida, o correio sempre traz boas noticias na volta. Nos dias em que nos apetece, o sol transporta saude, o ar transparece pureza, o dia amanhece claro, a ‘agua faz-se doce e calma, a terra sem necessidade de arado. Nos dias em que nos apetece, o numero faz-se pequeno, o denominador faz-se comum, o quociente faz-se ignicao, o resultado ‘e achado a medo, e no resto fica o enredo. Nos dias em que te apetece, corar tambem faz parte, sorrir com o olhar torna-se arte, sentes que tudo ‘e saudade, embarcas em passeios matinais pela cidade. Nos dias em que te apetece, todas as musicas surgem na radio na sequencia correcta, enquanto o Nilton, o Ricardo Araujo Pereira, o Nuno Markl arrancam de ti gargalhadas limpidas pela certa. Nos dias em que te apetece, perdes a nocao de dimensao, o espaco ‘e apenas aquele que medeia entre ti e ele, o tempo ‘e curto para tamanha demonstracao de afecto, as paredes escassas para escrever as palavras que queres que ele tenha sempre por perto. Nos dias em que nos apetece, por vezes tambem fugimos assustados ao sentirmo-nos encurralados, levando conosco a vontade e do que nao ocorreu a saudade…

Ilia Mar

 

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«Explicar as coisas que eu sinto, é quase como explicar as cores para um cego.»

Bob Marley, 6 February 1945 – 11 May 1981